Carnaval Eu Chego Lá: Provinciano, ou Nem Tanto Assim
Notas críticas sobre o último álbum de Giovani Cidreira
Há poucos dias Giovani Cidreira, ou simplesmente GIO, lançou seu último álbum intitulado Carnaval eu chego lá, disponível nas plataformas de streaming desde o dia 19 de novembro de 2024, mas que devo ter escutado somente uma semana depois ao ser lembrado pelas postagens de storys no Instagram do artista. Eis-me hoje, o escutando novamente e tentado a repetir hoje o que disse anos antes ainda por ocasião do lançamento de Nebulosa Baby (2021), seu álbum anterior: é a música mais interessante produzida em Salvador na atualidade.
Para ser honesto, no entanto, preciso dizer que meus afetos por Giovani Cidreira recuam no tempo mais de uma década. A primeira vez que tomei contato com as composições dele, se arrastava para terminar o ano de 2008 ou talvez já fosse 2009, época em que chegava a Salvador como migrante de Forquilha Town, e Rafiusk me carregou junto com Eugênia ao extinto “Beco dos Artistas” no Garcia para um rolê de bandas da emergente cena alternativa da cidade, lembro de ver GIO descalço, encaracolado cabelo volumoso em busca dos olhos, contraindo os lábios, introvertido, provavelmente vestindo um surrado jeans e uma camisa social de mangas longas branca — memória não me falhe, e olha que anda falhando — que nele mal abotoada insinuava o desalinhado visual indie.
Nessa circunstância ele anotava com uma caneta Bic em um caderno espiral pequeno, o que devia ser o set-list da apresentação que a Velotroz, sua banda, faria instantes depois. Imerso em uma performance de corpo que lhe era característica desde então, Giovani encantou um punhado de letras próprias que certamente distinguiam a Velotroz entre as demais postulantes da cena, e pelo menos uma delas, “Domingo não estou no parque”, me capturou intensamente a atenção, e me soava junto a um arranjo ritmicamente hiperativo, espécie de ode àquela geração transitiva entre às gramáticas analógica e digital, era a meu gosto a melhor música na cidade, e nem lembro se houve outra que disputasse o posto em pé de igualdade.
Um álbum com cara de álbum
Como diz um amigo, “pressão? temos”. O que se poderia esperar de alguém que compôs a melhor música de uma cena? Não raro a resposta pode ser frustrante. A linguagem musical é um desses terrenos em que o dito popular: um raio não cai duas vezes no mesmo lugar — costuma funcionar com frequência. De fato, uma vez li ou ouvi a Adriana Calcanhotto falar que quando finda um disco, tem a sensação que será último da carreira porque não sabe se conseguirá fazer acontecer de novo, como se todas as boas ideias tivessem se esgotado alí.
Mas nesse quesito, Giovani Cidreira tem passado bem como um autor invulgar. É bastante provável que como eu, você encontre entre as faixas de Carnaval eu chego lá, uma para chamar de sua. Isso já havia me ocorrido em Nebulosa Baby, quando elegi “Saudade de Casa” a música das playlists para tocar nas rodas de sociabilidade dos finais de semana, ou naquele sextou ensolarado, misto de alegria e melancolia. Desta feita, “A metade da metade”, que até lembra os rastros da ambiência indie de outrora, com um estilo de bateria brasilis bastante difundido mundo afora, fronteira de samba e bossa nova que contorna o acid lounge, é por hora, a escolhida.
Mas por motivos diversamente pessoais, Carnaval eu chego lá me aconteceu como o álbum de Cidreira que mais intimamente tocou meus desejos, ou seja, a obra dele onde mais músicas me seduziram. Isso sugere antes de qualquer coisa, que Giovani sabe compor e organizar um álbum, algo que parece trivial ou redundante de se mencionar, mas que em tempos de império do single é importante diferir: um “álbum” é distinto de um amontoado de singles, que também é um gênero possível, mas cujo nome é “coletânea”.
Efeito contemporâneo, provavelmente agenciado pelo modo relacional com que as playlists tem implicado a fruição de música em nosso cotidiano, atualmente tem sido bastante comum que mesmo artistas muito populares, ou especialmente estes/as, façam do álbum uma coletânea de singles originais, o último álbum da Anitta, Funk Generation, caminha por aí com suas 15 faixas quase simétricas distribuídas em 35 minutos, e aqui só ouso dizer que a certa altura, não muito longe, o tédio em mim se instala de maneira irrevogável. Imagina um show com apenas jingles, digo, singles.
Antes que o carnaval chegue
Obviamente, esse não é o caso de Carnaval eu chego lá, que funciona de modo completamente diferente. O álbum também se situa na margem dos 35 minutos, mas com 11 músicas, o que admitem mais dissimetrias temporais, mas também rítmicas e de ambiência, ainda que o samba quiçá seja o território aonde o carnaval no álbum quer chegar, no flow da audiência nossa escuta é convidada a costear as fronteiras com o afro beat em “Baticum”, no afoxé ibericamente eviesado em “O Rei”; a descansar no lento e ralentado xote em “Provinciano”; no cadente passo funeral digno das epopeias sertanejas buarquianas em “Rose”; e até mesmo roçar num sambolero muito característico do estilo Antônio Carlos e Jocafi, em “Identidade”.
No que se pode considerar uma espécie de “coda” do álbum, para o arremate Giovani escolhe uma levada murro-no-olho a la Timbalada em “Ternos da Lapinha”; e relaxa em canção-violão com texturas de fado “n’A Saudade Me Mata”, saudade tão comum à bossa, saudade atlântica, tão conhecida do próprio Cidreira em outros carnavais, saudade que já foi de casa, saudade de um domingo no Parque que lhe era negado, quem sabe até por si mesmo imerso no turbilhão de desvelos a um amor virtual, cibernético, platonismo digital.
Carnaval eu chego lá conta ainda com participação vezeira da voz singular Alice Caymmi, ao que parece, parceria afetiva bem além da colaboração pontual, mas que dessa vez trouxe consigo o irmão Danilo cuja flauta se faz notar logo na introdução de “Rose”. Traz ainda, um dueto com Céu em “O Samba e Você”, samba-canção que se não foi composto em parceria com ela, foi feito sob medida ao corpo vocal dela como terno fino de alfaiataria, o que só intensifica a sensação de amplificação da legitimidade da carreira de Giovani para além dos limites da dita baianidade nagô.
Provinciano, ou nem tanto assim…
Aliás, nada mais provinciano que o rótulo de “música baiana”, sabe-se lá o que isso quer ainda dizer hoje em dia. Recordando Caetano Veloso quando ganhou um Grammy desses qualquer na categoria World Music, talvez por Livro (1997) e disse algo editado fabulado pela minha memória como: é o prêmio que se dá a alguém que não canta em inglês mora fora dos Estados Unidos — , na escala tupiniquim essa categorias regionais performativas tem o poder de declarar um/a artista que, ou não nasceu no eixo Rio-Sampa, ou ainda não fez daquele território sua principal morada, discurso que Tom Zé reiteradamente tenta subverter.
Mas especialmente depois de Carnaval eu chego lá, estou propenso a acreditar que Cidreira, não sei se deliberadamente, tem buscado rasurar ao longo de sua trajetória os tais rastros da baianidade. O samba neste novo álbum não é tipicamente baiano, ainda que Letieres Leite tenha insistido que esse ritmo tem matrizes baianas (leia-se, Ladeira do Taboão — Salvador), há certamente acentos cariocas e paulistas no carnaval de Giovani, vide a “Feira do Rolo”, trilha que dá acesso ao álbum, collab com Vandal, e de “O Ouro e a Madeira”, de fazer inveja a Bezerra da Silva.
Mas nem só por isso, ele ainda se espraia a uma Bahia que se distancia da orla soteropolitana, um alembaía até, como prefiro enunciar, tateando o Recôncavo e resvalando por vezes no Sertão Profundo.
Por mais comum, artistas que costumam arrogar para si o selo baiano de qualidade são normalmente soteropolitanos cantando os amores e dores da província, e disso Giovani Cidreira tenta escapar com muito mérito, de modo que, ou é atualmente o mais complexamente baiano dos compositores soteropolitanos, ou nem tanto assim, quicá o mais brasileiro dos baianos em voga. Evoé, meu jovem!
Texto publicado originalmente em: 29 de novembro de 2024 - no MEDIUM.
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